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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Sobre o editor William Shawn

Do Atlantic Online:

The mystery of William Shawn's origins -- a source of considerable curiosity in the literary world throughout Shawn's long career -- is finally solved by one of his writers

Introduction by Ian Frazier

WILLIAM Shawn worked at The New Yorker magazine for fifty-four years. He began there in 1933, became the editor in 1952, and left in 1987, when a company that had bought the magazine forced him to resign. His tenure as editor coincided, roughly, with the years of the Cold War. It is safe to say that he was the pre-eminent magazine editor in the world during that time. Among his gifts was a faultless ear for Cold War-era apocalyptic, audible in the titles of famous works he edited, such as Hiroshimaand Silent Spring and The Fate of the Earth and The Fire Next Time. Mostly, though, his tastes in writing were hard to categorize. He published the stories and novels of J. D. Salinger, and Truman Capote's true-crime classic, In Cold Blood, and movie reviews by Pauline Kael that changed not just movie reviewing but reviewing in general. And E. B. White and Hannah Arendt and Edmund Wilson and Milan Kundera and Elizabeth Bishop, Joseph Brodsky and Harold Brodkey and Donald Barthelme and Janet Flanner and S. J. Perelman, George Steiner and Peter Handke and Philip Roth and Jamaica Kincaid and John McPhee and Joseph Mitchell -- the list of distinguished writers he published could go on and on. He loved new writing, read quickly, and almost always knew what to do to a piece to make it better. Often his editing amounted to an inspired sort of doing nothing, of just letting a piece run. Harold Ross, The New Yorker's founder and first editor, always referred to himself simply as "Ross,"and so did everybody else. Perhaps following that tradition, his successor called himself and signed himself "Shawn."A contributor might pick up his telephone and hear the small voice at the other end say, "Shawn here."But the contributor always replied, "Hello, Mr. Shawn." The honorific "Mr." seems to have been awarded him by popular acclaim among his colleagues out of respect, and in deference to his own politeness. He was a shy, formal man, and he took self-effacement so far that he met megalomania coming back the other way. He seldom talked about himself -- people who worked with him for decades knew little more of his biography than the few facts anyone could read about him in Who's Who. He gave almost no interviews, and almost never let himself be photographed. No record that he ever made a speech in public can be found. Harold Ross sometimes gave away studio head shots of himself on which he had scrawled personalized epigrams. Shawn would not have done that in a million years. His style was a pervasive anonymity, and negative capability in the extreme.

Probably he would have preferred that nobody write anything about him after he was gone. Probably, but not certainly -- he lived surrounded by rules, but kept a wary eye on them, and recklessly broke them himself once in a while if he felt the urge. In the article that follows, Ved Mehta, who was a staff writer at The New Yorker for thirty-three years, describes the romantically American background from which Shawn came. -- I. F.

"The New Yorker's Mr. Shawn" is not available online. It can be found on page 72 of the print edition of the April, 1998, Atlantic Monthly.

Sobre a repórter Eliane Brum

Do Novo em Folha:

Apesar de se dizer briguenta, Eliane Brum, repórter especial da "Época", fala baixinho, bem devagar, com a voz frágil.

E ela começou a palestra sobre a "extraordinária vida comum", no Congresso da Abraji, dizendo que o repórter deveria ir à rua em busca da fragilidade e da delicadeza dos outros.

Para ilustrar sua posição, a repórter leu, para uma sala sem lugares vazios, um monte de crônicas e reportagens que escreveu desde os tempos de "Zero Hora". Falou, por exemplo, da incrível galinha detida em atitude suspeita.

Permeando essas histórias, ela soltou alguns pensamentos que achei muito interessantes e anotei para compartilhar com vocês:

* Nós, jornalistas, construimos um documento diário, um relato da nossa vida contemporânea, da nossa sociedade. Se fazemos de forma mal feita, preguiçosa, reduzimos nosso lugar no mundo e, de forma criminosa, deixamos para a posteridade uma história distante da realidade.

* Nós reproduzimos uma das visões de mundo, uma das verdades. Determinamos quem deve ser visto e quem não deve. Com isso, a mídia, através de nós, mantém desigualdades. Não podemos ser ingênuos.

* Um repórter deve aprender a olhar e a escutar. Inclusive os "desacontecimentos" e os anônimos.

* Cada vez mais se faz matéria por telefone ou e-mail. É preciso resistir à pressão do chefe. Ir para a rua é a melhor coisa para um repórter.

* O real é complexo e temos a obrigação de reproduzir essa complexidade, com todas as suas palavras – mas também com os gestos, os silêncios, os cheiros, as cores, as texturas. Se entrevistamos por telefone, podemos reproduzir só as palavras, só as aspas. Com isso, reduzimos o mundo.

* É preciso anotar tudo o que está acontecendo durante a entrevista – não só as palavras – para reconstruir toda a complexidade depois. As pessoas falam também com o corpo.

* Mais importante que saber perguntar é saber escutar a resposta. O pior repórter é o que termina a frase pela pessoa, interrompe para completar ou porque acha que a pessoa não está dizendo o que ele quer ouvir. "Tenho aprendido a perguntar cada vez menos e ouvir cada vez mais." A pergunta já impõe nossa narrativa, dá uma linha. Temos que deixar a pessoa começar pelo que ela acha que é o começo e deixar contar o que quer contar.

* É preciso respeitar a palavra exata. A escolha que o entrevistado faz de cada palavra já é, por si só, informação importante.

* O espanto é o melhor da nossa profissão. "Sou pautada pela obrigação de olhar e estar aberta para o espanto."

* Nunca resistam a rodinhas de pessoas. Cheguem lá pra ver de que se trata. Deve ser pauta.

* Repórter não pode nem ser blasé, nem burocrático. Na rua, quem manda no repórter é ele mesmo.

* É preciso saber brigar e argumentar com o editor.

* Para escrever um texto prazeroso, não basta vomitar palavras. É preciso apurar, cuidar da precisão, da mesma forma que em qualquer texto jornalístico. Para escrever "fazia sol", ela entrevistou cinco pessoas, pedindo que descrevessem o tempo na hora do acontecimento, e ainda consultou três meteorologistas.

* Converse com o fotógrafo que te acompanha na pauta, troque idéias, acompanhe até o fim o trabalho dele.

* Temos a obrigação de proteger nossos entrevistados. A maioria não tem noção de como a vida vai mudar depois que a matéria for publicada.

* É bom já chegar com o bloquinho, ser o mais transparente possível durante as entrevistas, e gravar todas as conversas.

xxxxxx

"Fui tomada pela perplexidade quando a repórter especial Eliane Brum, da revista "Época", começou sua palestra no congresso da Abraji. Em meio a palestrantes-jornalistas sempre 'tensos', dominados pelo entusiasmo de grandes investigações e furos nacionais de reportagem, Eliane parecia vir de outro planeta.

Ela conduziu a palestra 'Jornalismo sobre a extraordinária vida comum' lendo, em voz suave e interpretada, histórias de personagens que havia conhecido em sua carreira. Entre uma leitura e outra, lembrava da importância de procurar entender, como repórter, o que dá sentido à vida das pessoas – e colocar isso no papel.

Eliane Brum, definitivamente, tem uma relação diferente com o jornalismo, distante das obsessões dos furos e dos grandes temas nacionais. Ela encara a profissão como uma missão: para ela, ser repórter é um jeito de estar no mundo, e empobrecê-lo é criminoso.

O mais interessante é que não são posturas inconciliáveis com o hard news: saber tratar temas com profundidade, saber ouvir, ter responsabilidade com o que escrevemos é comum (ou deveria ser) tanto a jornalistas como Eliane Brum quanto àquele que cobre o buraco da rua tal."

quarta-feira, 22 de julho de 2009

10 perguntas para se tomar decisões éticas

1. O que eu sei? O que eu preciso saber?
2. Qual é o objetivo do meu trabalho jornalístico?
3. Quais são as minhas preocupações éticas?
4. Que políticas organizacionais e profissionais deveria ter em conta?
5. Como posso incluir outras pessoas que tenham diferentes perspectivas e ideias, em um processo de tomada de decisão?
6. Quem são as pessoas que afetam minhas decisões? Quais são as suas motivações? Quais são legítimas?
7. E se os papéis são invertidos? Como é que eu sentiria se estivesse no lugar dos interessados?
8. Quais são as possíveis consequências das minhas ações? A curto prazo? A longo prazo?
9. Quais são as minhas opções para maximizar a minha responsabilidade de dizer a verdade e minimizar danos?
10. Posso justificar claramente minhas decisões e forma de pensar? Aos meus colegas? Ao público? Aos interessados?

Fonte: Doing Ethics de Jay Black, Bob Steele e Ralph Barney (Via).

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

O que é notícia?

* Rubem Braga, sempre.

Os temas que aparecem com frequência nos meios de comunicação vão moldar as conversas e os pensamentos que circulam na sociedade, vão ditar os modismos, as piadas, as preocupações, as imaginações. E o que é mais preocupante é que esses temas (os mais recorrentes na grande mídia) são quase sempre os mesmos. E estão geralmente associados às fofocas pessoais, entretenimentos apelativos ou tragédias sociais.

Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:

- Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime. "Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz..." Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:

"Anteontem, cerca de 21 horas, na rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos de 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraça-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando com um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão, voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavras: "Meu amor", ao que ele retorquiu: "Deolinda". Na manhã seguinte, Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência às 7,45 da manhã, isto é, dez minutos mais tarde do que o habitual, pois se demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra, de propriedade do casal."

A impressão que a gente tem, lendo os jornais - continuou meu amigo - é que "lar" é um local destinado principalmente à prática de "uxoricídio". E dos bares, nem se fala. Imagine isto:

"Ontem, cerca de 10 horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente à rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar "Flor Mineira", à rua Cruzeiro, 534, em companhia de seu colega Pedro Amancio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se à fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim, quando apareceu Joca de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo-se aos dois amigos, Joca manifestou desejo de sentar-se à sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota, que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo acontecendo aos três amigos, que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciário Adalberto Ferreira, residente à rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegado a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada."

E meu amigo:

- Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redação será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida...

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Aspas: Imprensa exclui os excluídos, diz Kotscho

"Muito dos meus colegas jornalistas deixam de ir onde o povo está. Fazem as coisas por telefone ou e-mail. O que predomina na imprensa brasileira hoje é o noticiário oficial, de poder e de celebridades. Isso exclui os excluídos. A gente muitas vezes fica falando dos patrões da grande mídia, mas a mudança de postura depende dos profissionais. O Zuenir já deu vários exemplos disso. O repórter tem que ir para a rua."

Ricardo Kotscho, jornalista e escritor no Fórum das Letras de Ouro Preto, em 2 de novembro de 2007