sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Obsessions: Oprah's saving the best for last

By Lisa Respers France, CNN
December 2, 2010 2:26 p.m. EST

(CNN) -- Tom Franklin has never met Oprah Winfrey, but that didn't stop him from dreaming what most writers dream.

"With her Mississippi roots, I kept fantasizing that she would see the title, say 'I know what that means, I'm from there' and pick up the book," said the author of "Crooked Letter, Crooked Letter." "I'm really sad because she got so many people to read and was doing such good work."

Many Oprah fans in general are saddened by her looming departure from her daytime talk show. But that sorrow has also been tempered this season with a bit of mania over the show that, after 25 years, has become a staple of Americana. In the world of television, there is no one bigger than the "O."

The talk show host has helped to stoke the flames of the excitement in the waning days of her show by delivering episodes that are seemingly bigger, better and brighter than anything she has ever done.

From reuniting the cast from "The Sound of Music," to scoring interviews with Michael Jackson's ex-wife, parents and children, and surprising Barbra Streisand with a visit from Robert Redford, Winfrey is going out with a bang the likes of which television audiences have never seen.

Todd Gold, managing editor of Fancast, said all of the excitement befits the ending of the reign of the "queen of television." Gold said he imagines Winfrey and her producers have put a great deal of imagination and energy into thrilling her audience each episode.

'She's going nuts," Gold said. "She's going for it. This is her final lap and it's just going to build and build every day."

Crazy over her "Oprah's Favorite Things" episode? Well, this season Winfrey delighted fans with not one, but two shows and sent her audience members into a frenzy with such high-end gifts as an iPad, a cruise and a 2012 Volkswagen Beetle.
"She's going for it. This is her final lap and it's just going to build and build every day."
--Todd Gold of Fancast.com

"It isn't even a new Volkswagen, it's a Volkswagen from two years from now that hasn't even been made yet and was only seen by Oprah," said Gold. "And isn't that so Oprah? You didn't even have to be there [in the audience] to be thrilled by those episodes because all of the excitement just spilled over from watching it."

That excitement has also translated to ratings gold. According to The Hollywood Reporter, "The Oprah Winfrey Show" averaged 8.3 million viewers for the week of November 8, up from the average of 7 million viewers a week who have been watching since the final season began in September, according to Gold's site.

When the talk show host announced a year ago that she would end "The Oprah Winfrey Show" in September 2011 after a quarter century on the air, it not only set off a mad scramble among viewers to get tickets; potential guests also felt the pressure to get on that golden stage, which has served as a launching pad for success for everyone from doctors to small-business owners.

The New York Times reported that one aspiring writer even started blogging her attempt to get her book published before Oprah leaves the airwaves.

"It's not just that she had the Midas touch and everything she touches turns to gold," said Susan Harrow, media coach and author of the book "How to Get Booked on Oprah." "It's that people are invested in Oprah and they really see her as someone whose opinion matters to them. People who follow Oprah, they want to know what she thinks, what she's eating, what she's wearing, because if she's doing it it's got to be important to them."

And that obsession with Winfrey has only intensified as the remaining months tick down.

Shelly Jystad is a member of the Bookworms, a book club which recently headed to the show in Chicago, Illinois, from Jamestown, North Dakota, for the episode featuring best-selling author Jonathan Franzen.

The group was thrilled with the chance to be in the audience, which Jystad said included a 100-year-old fan who had followed Winfrey's career, and the gift of a free Amazon Kindle e-reader to every audience member.

Jystad said Winfrey's success has been aided by being so easy to relate to and so open to sharing her own struggles. "Part of it is knowing her journey," she said. "She's been able to overcome so much, and I think she is very genuine in her desire to help others achieve their dreams."

And Jystad said she doesn't believe Winfrey's influence will cease, simply because the talk show host won't be on the air.

"I think she will just be influencing people through another venue with her new network," she said.

But fan Monique Merritt, 26, said she has grown up with the show and doubts that there will ever be another like it. Even as Winfrey moves on to the next stage of her career, heading up the OWN Network, Merritt said she doesn't think the venture will be able to garner the same interest Winfrey has every day for the last 25 years.

"She talks about so much that happens in the world and she hits so many important points," Merritt said. "It's not just a talk show. The new network is cool, but it's not the same as seeing her every day at 4 o'clock."

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Operário Em Construção, de Vinicius de Moraes

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Eu não sou da sua rua

Eu não sou da sua rua
Eu não sou o seu vizinho
Eu moro muito longe, sozinho
Estou aqui de passagem
Esse mundo não é meu
Esse mundo não é seu

Eu não sou da sua rua
Eu não falo a sua língua
Minha vida é diferente da sua
Estou aqui de passagem
Esse mundo não é
Meu, esse mundo não é seu

Branco Mello e Arnaldo Antunes

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O lago do cisne — depois da seca

Da Folha:

25/02/2009 - 09h51
Resgate de cisne mobiliza frequentadores de parque da Aclimação

LAURA CAPRIGLIONE
da Folha de S.Paulo

O macho e a fêmea de cisne negro nadavam juntos no momento em que o fundo do lago da Aclimação abriu-se e 78 milhões de litros d'água começaram a desabar em um redemoinho cujo vórtex apontava para o córrego da Pedra Azul, que deságua no Tamanduateí, que deságua no Tietê.

Ralo adentro rolaram peixes, tartarugas e, muitos frequentadores do parque da Aclimação juram tê-lo visto, aves aquáticas. Quando quase todo o lago já tinha sido sugado, e apenas uma fina lâmina d'água restava recobrindo o fundo, milhares de peixes pulavam desesperados, tentando sair do atoleiro.

No meio da confusão, os dois cisnes assistiam a tudo, pescoços colados. "Eles estavam como que hipnotizados. Nem tentavam fugir", lembrava ontem Romilda Queiroz, 67, professora aposentada, chorando os acontecimentos da véspera.

Ontem, o casal de cisnes separou-se. O macho foi capturado ao se aproximar da margem do lago. Enviaram-no para o Viveiro Manequinho Lopes, no parque Ibirapuera, local que recebeu as aves flageladas (patos, marrecos, gansos, além do cisne). Faltou uma.

O cisne fêmea driblou todas as tentativas feitas até as 18h de ontem para capturá-lo. Refugiou-se no meio do ex-lago, cercado por poças d'água agora recheadas de peixes mortos --cascudos, tilápias, carpas coloridas, carpas-de-espelho e até mussuns, espécimes de corpo cilíndrico, parecidos com enguias ou moreias.

Resgate

"O cisne está atolado." Ninguém sabia se estava, mas a fêmea, parada por horas no meio do pântano, indicava isso, e o murmúrio espalhou-se.

Frequentadores do parque exigiam que a polícia fizesse um resgate da ave à la Rambo --helicóptero em voo estacionário, um Rambo descendo de rapel até o animal.

A saída foi cogitada porque, antes, alguns voluntários e guardas civis metropolitanos já haviam tentado alcançar a fêmea --andando. Afundaram na lama. O lago converteu-se em armadilha movediça. Ir de barco também não dava, não havia água suficiente --encalhava.

Foi quando apareceu Edmir Rabello, radialista "patriota e voluntário" na autodefinição. Chapéu camuflado de pescador, bermudas, botas de mergulhador e uma boia imensa feita com câmara de pneu de caminhão, ele parecia um aqualouco, mas tinha uma ideia na cabeça: ser conduzido por cordas --de boia-- até o cisne, e assim capturá-lo.

Por volta das 15h, as centenas de pessoas que assistiam à agonia do bicho soltaram um óóóóóó uníssono. A ave tinha se movido. Foram poucos centímetros, mas ok. Ela não estava atolada.

A estratégia mudou. Esticou-se uma corda de uma margem à outra do lago. Homens em joggings limpinhos, frequentadores do parque, ofereciam-se para ajudar a agitar a corda, de modo a "arrastar" a ave até a margem coalhada de lixo urbano --pneus velhos, sapatos, garrafas, e latinhas que apareceram depois que a água baixou.

O "arrastão" na lama envolveu até quem achava a estratégia bizarra, como o músico Luís Guilherme de Mattos, 28, guitarrista e violonista, que terminou imundo e com as mãos lanhadas. "Achei um pouco rústico demais. Mas eu senti que devia ajudar, e fui."

Até que funcionou e o bicho foi bonitinho para a margem. O que ninguém sabia, porque paulistano que é bom não sabe nada de natureza, é que os cisnes são exímios voadores.
Quando o homem com a rede se aproximou da ave, ela abriu as asas imensas (aí se viram as pontas brancas) e voou, linda, de volta para o meio do lago sem água. Os espectadores, até ali calados, irromperam em aplausos e gritos de alegria.

Quietinha, a funcionária que cuida dos banheiros do parque há 14 anos, Agustia Maria, 37, picava bem miudinho um pão francês. "Deixa essa confusão parar. Daqui a pouco ela vem comer na minha mão, como vem todos os dias."

A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, responsável pela administração do parque da Aclimação, não sabia informar ontem à noite se, quando ou como será feita nova tentativa de resgate da ave. A noite passada ela passou sozinha no lago sem água.

Sobre o editor William Shawn

Do Atlantic Online:

The mystery of William Shawn's origins -- a source of considerable curiosity in the literary world throughout Shawn's long career -- is finally solved by one of his writers

Introduction by Ian Frazier

WILLIAM Shawn worked at The New Yorker magazine for fifty-four years. He began there in 1933, became the editor in 1952, and left in 1987, when a company that had bought the magazine forced him to resign. His tenure as editor coincided, roughly, with the years of the Cold War. It is safe to say that he was the pre-eminent magazine editor in the world during that time. Among his gifts was a faultless ear for Cold War-era apocalyptic, audible in the titles of famous works he edited, such as Hiroshimaand Silent Spring and The Fate of the Earth and The Fire Next Time. Mostly, though, his tastes in writing were hard to categorize. He published the stories and novels of J. D. Salinger, and Truman Capote's true-crime classic, In Cold Blood, and movie reviews by Pauline Kael that changed not just movie reviewing but reviewing in general. And E. B. White and Hannah Arendt and Edmund Wilson and Milan Kundera and Elizabeth Bishop, Joseph Brodsky and Harold Brodkey and Donald Barthelme and Janet Flanner and S. J. Perelman, George Steiner and Peter Handke and Philip Roth and Jamaica Kincaid and John McPhee and Joseph Mitchell -- the list of distinguished writers he published could go on and on. He loved new writing, read quickly, and almost always knew what to do to a piece to make it better. Often his editing amounted to an inspired sort of doing nothing, of just letting a piece run. Harold Ross, The New Yorker's founder and first editor, always referred to himself simply as "Ross,"and so did everybody else. Perhaps following that tradition, his successor called himself and signed himself "Shawn."A contributor might pick up his telephone and hear the small voice at the other end say, "Shawn here."But the contributor always replied, "Hello, Mr. Shawn." The honorific "Mr." seems to have been awarded him by popular acclaim among his colleagues out of respect, and in deference to his own politeness. He was a shy, formal man, and he took self-effacement so far that he met megalomania coming back the other way. He seldom talked about himself -- people who worked with him for decades knew little more of his biography than the few facts anyone could read about him in Who's Who. He gave almost no interviews, and almost never let himself be photographed. No record that he ever made a speech in public can be found. Harold Ross sometimes gave away studio head shots of himself on which he had scrawled personalized epigrams. Shawn would not have done that in a million years. His style was a pervasive anonymity, and negative capability in the extreme.

Probably he would have preferred that nobody write anything about him after he was gone. Probably, but not certainly -- he lived surrounded by rules, but kept a wary eye on them, and recklessly broke them himself once in a while if he felt the urge. In the article that follows, Ved Mehta, who was a staff writer at The New Yorker for thirty-three years, describes the romantically American background from which Shawn came. -- I. F.

"The New Yorker's Mr. Shawn" is not available online. It can be found on page 72 of the print edition of the April, 1998, Atlantic Monthly.

Sobre a repórter Eliane Brum

Do Novo em Folha:

Apesar de se dizer briguenta, Eliane Brum, repórter especial da "Época", fala baixinho, bem devagar, com a voz frágil.

E ela começou a palestra sobre a "extraordinária vida comum", no Congresso da Abraji, dizendo que o repórter deveria ir à rua em busca da fragilidade e da delicadeza dos outros.

Para ilustrar sua posição, a repórter leu, para uma sala sem lugares vazios, um monte de crônicas e reportagens que escreveu desde os tempos de "Zero Hora". Falou, por exemplo, da incrível galinha detida em atitude suspeita.

Permeando essas histórias, ela soltou alguns pensamentos que achei muito interessantes e anotei para compartilhar com vocês:

* Nós, jornalistas, construimos um documento diário, um relato da nossa vida contemporânea, da nossa sociedade. Se fazemos de forma mal feita, preguiçosa, reduzimos nosso lugar no mundo e, de forma criminosa, deixamos para a posteridade uma história distante da realidade.

* Nós reproduzimos uma das visões de mundo, uma das verdades. Determinamos quem deve ser visto e quem não deve. Com isso, a mídia, através de nós, mantém desigualdades. Não podemos ser ingênuos.

* Um repórter deve aprender a olhar e a escutar. Inclusive os "desacontecimentos" e os anônimos.

* Cada vez mais se faz matéria por telefone ou e-mail. É preciso resistir à pressão do chefe. Ir para a rua é a melhor coisa para um repórter.

* O real é complexo e temos a obrigação de reproduzir essa complexidade, com todas as suas palavras – mas também com os gestos, os silêncios, os cheiros, as cores, as texturas. Se entrevistamos por telefone, podemos reproduzir só as palavras, só as aspas. Com isso, reduzimos o mundo.

* É preciso anotar tudo o que está acontecendo durante a entrevista – não só as palavras – para reconstruir toda a complexidade depois. As pessoas falam também com o corpo.

* Mais importante que saber perguntar é saber escutar a resposta. O pior repórter é o que termina a frase pela pessoa, interrompe para completar ou porque acha que a pessoa não está dizendo o que ele quer ouvir. "Tenho aprendido a perguntar cada vez menos e ouvir cada vez mais." A pergunta já impõe nossa narrativa, dá uma linha. Temos que deixar a pessoa começar pelo que ela acha que é o começo e deixar contar o que quer contar.

* É preciso respeitar a palavra exata. A escolha que o entrevistado faz de cada palavra já é, por si só, informação importante.

* O espanto é o melhor da nossa profissão. "Sou pautada pela obrigação de olhar e estar aberta para o espanto."

* Nunca resistam a rodinhas de pessoas. Cheguem lá pra ver de que se trata. Deve ser pauta.

* Repórter não pode nem ser blasé, nem burocrático. Na rua, quem manda no repórter é ele mesmo.

* É preciso saber brigar e argumentar com o editor.

* Para escrever um texto prazeroso, não basta vomitar palavras. É preciso apurar, cuidar da precisão, da mesma forma que em qualquer texto jornalístico. Para escrever "fazia sol", ela entrevistou cinco pessoas, pedindo que descrevessem o tempo na hora do acontecimento, e ainda consultou três meteorologistas.

* Converse com o fotógrafo que te acompanha na pauta, troque idéias, acompanhe até o fim o trabalho dele.

* Temos a obrigação de proteger nossos entrevistados. A maioria não tem noção de como a vida vai mudar depois que a matéria for publicada.

* É bom já chegar com o bloquinho, ser o mais transparente possível durante as entrevistas, e gravar todas as conversas.

xxxxxx

"Fui tomada pela perplexidade quando a repórter especial Eliane Brum, da revista "Época", começou sua palestra no congresso da Abraji. Em meio a palestrantes-jornalistas sempre 'tensos', dominados pelo entusiasmo de grandes investigações e furos nacionais de reportagem, Eliane parecia vir de outro planeta.

Ela conduziu a palestra 'Jornalismo sobre a extraordinária vida comum' lendo, em voz suave e interpretada, histórias de personagens que havia conhecido em sua carreira. Entre uma leitura e outra, lembrava da importância de procurar entender, como repórter, o que dá sentido à vida das pessoas – e colocar isso no papel.

Eliane Brum, definitivamente, tem uma relação diferente com o jornalismo, distante das obsessões dos furos e dos grandes temas nacionais. Ela encara a profissão como uma missão: para ela, ser repórter é um jeito de estar no mundo, e empobrecê-lo é criminoso.

O mais interessante é que não são posturas inconciliáveis com o hard news: saber tratar temas com profundidade, saber ouvir, ter responsabilidade com o que escrevemos é comum (ou deveria ser) tanto a jornalistas como Eliane Brum quanto àquele que cobre o buraco da rua tal."

quarta-feira, 22 de julho de 2009

10 perguntas para se tomar decisões éticas

1. O que eu sei? O que eu preciso saber?
2. Qual é o objetivo do meu trabalho jornalístico?
3. Quais são as minhas preocupações éticas?
4. Que políticas organizacionais e profissionais deveria ter em conta?
5. Como posso incluir outras pessoas que tenham diferentes perspectivas e ideias, em um processo de tomada de decisão?
6. Quem são as pessoas que afetam minhas decisões? Quais são as suas motivações? Quais são legítimas?
7. E se os papéis são invertidos? Como é que eu sentiria se estivesse no lugar dos interessados?
8. Quais são as possíveis consequências das minhas ações? A curto prazo? A longo prazo?
9. Quais são as minhas opções para maximizar a minha responsabilidade de dizer a verdade e minimizar danos?
10. Posso justificar claramente minhas decisões e forma de pensar? Aos meus colegas? Ao público? Aos interessados?

Fonte: Doing Ethics de Jay Black, Bob Steele e Ralph Barney (Via).

domingo, 6 de julho de 2008

No news today



Vídeo de Ethan Bodnar sobre música de Ben Frost.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Os filhos do país dos escândalos

Por Eliane Lobato - IstoÉ de 03/08/2005

Eram 19h50 da terça-feira 26, quando o senador Delcídio Amaral (PT-MS) anunciou: “Chegamos no limite.” Ele interrompeu a sessão da CPI dos Correios que durante nove horas ouvira Renilda de Souza – mulher do publicitário Marcos Valério. Havia três parlamentares inscritos para perguntar. Mas os limites de Renilda se extinguiam na proporção que sua vida particular se devassava diante da fúria dos inquisidores. Interrogações sobre seus sentimentos mais íntimos borbulhavam num espetáculo intimidatório que Kafka certamente adoraria descrever. Numa das cenas mais constrangedoras da CPI, o deputado Julio Redecker (PSDB-RS) pisoteou. “Sua mãe deve estar sofrendo muito e rezando pela senhora.” “Não, não está. Ela tem mal de Alzheimer”, respondeu Renilda. “A senhora usou dinheiro que deveria ser da população. Como tem coragem de olhar na cara dos próprios filhos?”, chutou Redecker, levando a depoente a um choro profundo. Nessa mistura, às vezes sórdida de público e privado, o próprio Marcos Valério, ao listar suas empresas para a CPI, lembrou, aos prantos, que uma delas, a JVN – que não chegou a ser aberta –, tinha as iniciais dos três filhos, inclusive de um que morreu de câncer aos seis anos.

Em tempos de escândalos, produção de dossiês em escala, CPIs se atropelando e reputações jogadas no mar de lama nacional, as casas de muitos brasileiros viraram cenários de dramas que não podem ser dimensionados por extratos bancários e de imagens tristes que não são captadas pelas câmeras de tevê. Por trás da lavagem de roupa suja na CPI dos Correios e de tantas outras investigações – CPI do PC, Escândalo dos Precatórios, Orçamento, das Bicicletas, Frangogate, Máfia do Sangue –, famílias têm sido dilaceradas. Denunciantes e denunciados compartilham aquele que talvez seja o preço mais caro cobrado pela faxina ética do País: filhos e filhas crescendo sob a marca da vergonha, do medo e até do abandono. Caso de Paulinho, hoje com 22 anos, e Ingrid, 24, filhos do ex-tesoureiro de Collor, PC Farias (assassinado em 1996), que desceram ao fundo do poço. Ou Ana Sophia, a caçula do ex-ministro da Saúde Alceni Guerra, vítima de uma professora maquiavélica. Ou ainda Christian, nove anos, neto do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), barrado no colégio por colegas que queriam cobrar dele uma versão escolar do mensalão. Filha do ex-presidente nacional do PT José Genoino, Miruna, 23 anos, escreveu para o pai uma carta-desabafo. São filhos do País dos escândalos que guardam seqüelas pelo resto de seus dias.

Normalmente, esses dramas familiares não são visíveis. Outras vezes são jogados na arena. ISTOÉ ouviu nas últimas semanas depoimentos de quem constitui a parte mais vulnerável desse mundo político-policial.

Pivô do escândalo dos Correios e da denúncia do mensalão – a mesada que seria paga a parlamentares pela direção do PT –, o deputado Roberto Jefferson não se furta a repetir – em conversas informais – os estragos que sua conturbada trajetória política vem causando à sua família. Quando era líder da tropa de choque de Collor, seu filho Robertinho, na época com 14 anos, recebeu “uma coça” e teve a mandíbula quebrada. Agora, na CPI dos Correios, outra fratura familiar, dessa vez com o neto. Primogênito de Cristiana Brasil, vereadora carioca e filha de Jefferson, Christian, nove anos, foi barrado no corredor do colégio Cruzeiro, no Rio de Janeiro, onde estuda, por alunos que deram a seguinte ordem: “Só passa aqui se pagar mensalão.” A agressão foi comunicada à direção da escola, que deu apoio ao garoto. “Isso não aconteceu uma vez, foram várias. E por mais que ele tenha o nosso apoio, o da terapia e o do colégio, ninguém pode impedir o sofrimento dele”, diz a mãe, também alvo de preconceito. “Na academia de ginástica, eu deixei de ser Cristiana e passei a ser a filha de Roberto Jefferson. ‘Amigos’ passaram a evitar nossa família, a desmarcar encontros, a não atender telefone”, conta.

Para o pediatra Leonardo Posternak, presidente do Instituto da Família, em São Paulo, filhos podem colocar “em xeque a figura idealizada de seus pais” ao vê-los envolvidos em escândalos. “Descobrem que o pai não é um super-herói.” Segundo Posternak, é difícil para a criança entender por que alguém vai deixar de brincar com ela por algo “que seu pai fez”. Mas, conselho de especialista: deve-se contar o que acontece, em vez de isolá-la “numa bolha de plástico”. O psicanalista Alberto Goldim enxerga no sentimento dos filhos uma metáfora equivalente ao sentimento de confusão e tristeza que invade a Nação. “Um líder, um presidente, é como um pai para a população. Quando a confiança é destruída, o sofrimento é parecido com o de filhos que perdem a referência paterna”, explica Goldim. Não é à toa que o País discute com passionalidade incomum se Luiz Inácio Lula da Silva sabia ou não da lama que chegou à sua ante-sala. Dentro de casa, Lula tem seus dilemas. O “pai” do País é também pai do biólogo Fábio Luís, 28 anos, que teve questionados os negócios de sua empresa, a produtora Gamecorp, com a Telemar.

Recortes de jornais – Hoje fora dos holofotes e com seus dramas esquecidos, Alceni Guerra viu dois filhos, crianças na época em que era ministro da Saúde do governo Collor e acusado de superfaturamento na compra de bicicletas, serem covardemente envolvidos no episódio. Ele teve sua inocência comprovada, porém as cicatrizes já sangravam. “Na festa do Dia dos Pais, Ana Sophia, então com cinco anos, preparou um presente para o pai, orientada por uma professora: um cartaz com recortes de jornais estampando acusações de corrupção contra mim. Vi minha filha desfilar com aquela coisa acintosa diante de um colégio lotado, com um sorriso de orelha a orelha, sem ter a mínima idéia do que estava fazendo. Receber um abraço no Dia dos Pais de minha filha com um cartaz me chamando de corrupto foi a pior coisa que sofri”, relata Guerra no livro A era do escândalo, de Mário Rosa. Já Guilherme, então com 12 anos, foi capa de jornais em foto que mostrava pai e filho sentados no meio-fio, ao lado das bicicletas que usavam num passeio no Parque da Cidade, em Brasília.

O trauma acompanhou Guilherme por muitos anos. O mesmo aconteceu com Victor Camargo Pitta do Nascimento, filho do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta, pivô do escândalo dos precatórios. Aos 25 anos, sua família desmoronou quando a mãe, Nicéa, contou o que sabia a respeito do governo Paulo Maluf. Victor e Pitta se agrediam via imprensa e romperam. Recentemente, o filho resolveu procurar o pai. “Sofremos muito. Agora começamos a nos falar de novo. Eu tomei a iniciativa porque acho que o ofendi e que ele merece uma segunda chance.” Ver o pai ser destruído causou uma erosão interna no jovem, que parou de trabalhar e de estudar, e caiu em depressão. A irmã, Roberta, também não agüentou. Ela estudava direito na Faculdades Metropolitanas Unidas, em São Paulo e viu o episódio frangogate (superfaturamento na compra de frangos no governo de Paulo Maluf, do qual Pitta era secretário de Finanças) ser levado para uma aula. “A sala inteira olhava para ela. Roberta trancou a matrícula e se mudou do Brasil”, relembra Nicéa. Para evitar que sua filha Naína, oito anos, sofra traumas, a ex-secretária e testemunha Fernanda Karina Somaggio – que tem repetido que sua motivação é ajudar a criar “um Brasil melhor” – adota estratégias para protegê-la, como restringir seu contato com pessoas estranhas e manter distância das ruas, que causam certa solidão. Karina deve, portanto, pensar bem antes de aceitar o convite de uma revista masculina para posar nua, como têm comentado.

“Devolve meu sangue!” – Um exemplo bem-sucedido de filho que conseguiu sobreviver à fúria das denúncias é a modelo Ellen Jabour, namorada do ator Rodrigo Santoro. Seu pai, o empresário Jaisler Jabour de Alvarenga, foi acusado, no ano passado, de integrar a Máfia do Sangue, nome dado a fraudadores de medicamentos no Ministério da Saúde. Ellen só perdeu a fleuma uma vez. Segundo nota da coluna de Ancelmo Gois, em O Globo, ela estava num camarim do São Paulo Fashion Week quando alguém gritou: “Devolve meu sangue!” A modelo retribuiu o desaforo e encerrou o caso.

Nem sempre, entretanto, o saldo é negativo. Filho de Eriberto, o motorista que desmontou o esquema PC Farias e foi peça-chave no impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, André Vinícius colheu bem mais elogios do que hostilidades. Na época, ele tinha cinco anos e não entendia o que acontecia. Sofria, apenas, porque os pais o levavam para dormir com os avós, por precaução. “Eu não gostava da noite porque me separava deles. Era triste”, relembra. Com o tempo, ele passou a ser cumprimentado pela atitude heróica do pai. “Tenho orgulho. Ele foi corajoso. Mexeu com gente importante e era a parte mais fraca. Normalmente, as pessoas falam dele de forma respeitosa.

Exceto um ‘seu pai é dedo-duro!’, dito de brincadeira, o resto é elogio.” Para Eriberto, o sofrimento da família foi grande, mas valeu a pena. “Recebi ameaças por telefone, tivemos proteção da Polícia Federal, mas a gente tentava passar certa normalidade para os filhos. Íamos para a pracinha e fazíamos de conta que não estava acontecendo nada”, relembra.

Do outro lado do mesmo caso, o saldo não é nada alegre para os descendentes de PC Farias. Paulinho, hoje com 22 anos, e Ingrid, 24, não levam a vida como outros jovens. Ela pouco sai e vive deprimida, segundo relatos de poucos amigos. Paulinho não dá um passo sem seguranças, mais de uma década depois dos escândalos. Como disse o ex-presidente da Câmara Ibsen Pinheiro, “quem escolhe o caminho da política sabe que está na chuva e se molhar é contingência. Mas e os que não foram à chuva e se molham também?” Apesar de inocente, Pinheiro foi cassado após acusação de envolvimento com a Máfia do Orçamento e teve sua história passada a limpo recentemente, mais de uma década depois. Com a autoridade de quem comeu o pão que o diabo amassou injustamente, ele diz que o mínimo que se pode fazer para tentar poupar a família, “a parte que mais sofre”, em momentos como os atuais é ter “comedimento”. Fica o conselho. Ficam as marcas.

domingo, 4 de maio de 2008

Metáfora - Gilberto Gil

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

sábado, 5 de janeiro de 2008

Por uma agenda internacional brasileira

* Do blog Em Cima da Mídia, de Mauro Malin. Postado em 24/11/2006

A editora de Mundo da Folha de S. Paulo, Claudia Antunes, voltou de um ano de estudos nos Estados Unidos com a sensação de que os jornalistas, lá, trabalham menos do que os brasileiros. “Eles trabalham muito, claro, mas não como nós”, afirma.

Claudia diz que a crise da imprensa americana é um assunto intensamente debatido, porque os jornais perderam muita circulação, embora a indústria ainda seja lucrativa. “Mas, como existe uma projeção pessimista quanto ao futuro do jornal de papel, a cotação em bolsa é afetada” e a situação financeira das empresas se torna mais precária. Ainda assim, os grandes jornais nacionais – The New York Times, Washington Post, Wall Street Journal – e alguns regionais, entre os quais cita o The Seattle Times, menos conhecido no Brasil, têm redações muito maiores do que as brasileiras. “É raro encontrar jornalista que faça três pautas diárias, rotina nos jornais brasileiros”, afirma.

A degola dos correspondentes

Os jornais americanos com freqüência põem fora do dia-a-dia um repórter que passará um, dois meses apurando uma reportagem. “No Brasil isso ainda acontece, mas é cada vez mais raro”.

Claudia Antunes diz que gosta do trabalho na Internacional. Isso fez com que ela aceitasse convite do jornal para, após um ano em Harvard, assumir a editoria de Mundo (ver, abaixo, "Aprendizado de sucursal").

– E eu já conhecia a maioria das pessoas. A equipe de Mundo da Folha é acima da média, comparada com as de outros jornais, porque tem muitos repórteres, que trabalham como redatores mas também viajam para fazer coberturas especiais – orgulha-se.

O trabalho ficou muito mais fácil com a internet:

– Ela abriu campos novos e tornou menos passivos os redatores de Internacional, menos dependentes do material enviado pelas agências de notícias. O padrão melhorou muito. O lado ruim é que todos os jornais cortaram investimentos em Internacional.

Cita o caso do Jornal do Brasil. No tempo em que trabalhava lá, o jornal tinha correspondentes em Moscou, Tóquio, Roma, Londres, Paris, Madri, Bonn, Buenos Aires, Washington, Nova York e até Bogotá. Hoje, nenhum jornal brasileiro tem isso.

Repórteres de agências são “heróicos”

Claudia não concorda com a crítica de Nahum Sirotsky, legendário jornalista que é correspondente do IG, a respeito da discutível qualidade dos correspondentes de agências (ver “Faltam correspondentes”).

– Os repórteres das agências são heróicos – diz a editora de Mundo da Folha. – Mas não são analíticos. É preciso levar em conta que competem com o online.

O que não se pode, diz a jornalista, é “ficar apenas com a tradução do material de agência, que não tem contexto, nem história, nem análise”. Mas, segundo Claudia, os correspondentes das agências se esforçam para ser objetivos.

– Mais do que os dos jornais, como o New York Times, o Financial Times, o Le Monde, que têm posições formadas sobre os assuntos, nem sempre políticas, mas definidas pela cultura, cultura tout court e cultura política.

Só com o trabalho das agências não se entende o que acontece, constata ela.

Claudia não se diz satisfeita com o trabalho realizado. “Trabalho em jornal, como se sabe, é uma frustração diária, nunca se chega ao que se tem em mente”. Uma queixa que se repete nas redações: “o fechamento é muito cedo”. Grande ironia da mudança tecnológica. Quando os computadores chegaram ao Jornal do Brasil, onde éramos colegas, a lógica indicava que o fechamento poderia ser retardado, dadas as facilidades criadas pela tecnologia. Aconteceu o contrário.

Nesse ambiente, torna-se ainda mais necessária uma boa formação. “O jornalista precisa ter a história na cabeça, saber o que é relevante”, diz Claudia.

Agenda própria, sem ser “caipira”

Entre os grandes jornais, a editora destaca o New York Times e o Financial Times:

– Dois bons jornais, complementares, diferentes. O NYT com foco sempre na cultura. O FT é um jornal de economia, mas sabe enxergar a política na economia. O NYT faz grandes coberturas internacionais, mas tem dificuldade para fazer essa combinação. Como os jornais brasileiros.

Claudia afasta a idéia conspiratória. “O que eles têm é uma agenda americana” muito bem definida, há muito tempo, e amplamente compartilhada por diferentes setores da sociedade. É o que falta um pouco na cobertura internacional da imprensa brasileira, afirma. “Ter uma agenda própria”. Não em termos políticos, mas em extensão da cobertura.

– Acho que o que pode diferenciar uma cobertura da outra não é tanto o viés político, se é esquerda, direita, centro, se mantém a objetividade, se não mantém – diz a jornalista. – Toda cobertura é influenciada, um pouco, pelo ponto de vista de quem está produzindo, e isso é mais pronunciado em política internacional. O que diferencia é de que país, de quem você vai falar. E nisso é que a gente não pode ser igual nem aos Estados Unidos, nem aos jornais europeus. A gente pode aproveitar muita coisa que eles fazem, como a gente aproveita. Tem muita coisa de qualidade. Mas a gente tem que tentar criar a nossa própria agenda. Não de uma forma, assim, caipira, “Ah, vamos dar porque tem relação com o Brasil. Vamos dar porque isso interessa ao Brasil”. Não é desse ponto de vista. Quem faz internacional tem que ter uma visão cosmopolita. Não precisa ter uma relação direta com o Brasil para ser importante. É a gente tentar ver que regiões do mundo têm problemas iguais aos nossos. O que você vai dar é mais importante do que como você vai dar. Porque como você vai dar, você tem que ter sempre uma idéia de ser sempre o mais objetivo possível e ao mesmo tempo o mais contextualizado e o mais analítico possível.

Aprendizado de sucursal

Claudia Antunes, se formou em jornalismo pela UFRJ em 1982. Dos primeiros trabalhos como estagiária ficou-lhe uma lembrança forte do BIP – Boletim Informativo das Paróquias –, jornalzinho da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Depois foi para o Jornal do Brasil, onde passou, ainda estagiária, pela editoria de Cidade e pela Internacional – que, chefiada por Jorge Pontual, tinha como redatores, entre outros, Raul Ryff e Aluisio Machado.

Em 1984 foi para a TV Manchete, como editora de texto. Voltou em 1986 à Internacional do JB, onde foi redatora e subeditora. Entre 1992 e 1995, foi subeditora de Política – isso incluiu a inesquecível cobertura do impeachment de Fernando Collor. Em 1995, substituiu Regina Zappa, a editora de Internacional, que havia recebido uma bolsa para estudar nos Estados Unidos.

Em 1999, convidada por Marcelo Beraba, tornou-se coordenadora de Redação – cargo equivalente a chefe de Reportagem – da sucursal da Folha de S. Paulo no Rio de Janeiro. Em julho de 2005, iniciou um ano sabático patrocinado pela Fundação Nieman, de Harvard. São 12 bolsas para jornalistas americanos e outro tanto para não-americanos. Ela pôde escolher os cursos que seguiria. Na volta, foi convidada a assumir a editoria de Internacional da Folha.

De sua experiência na sucursal do Rio ficou o aprendizado de faz-tudo. “Foi seqüestro no ônibus 174, apresentação de balanço da Petrobrás, mudança na diretoria do BNDES, cobertura política de Garotinho. Sucursal tem essa característica”.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Foto: Escultura de neve na China

* Escultura de neve "Romantic Feelings" em Harbin, na província de Heilongjiang, China. Da Reuters.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Central da Periferia no Haiti

* O Haiti é não aqui? Regina Casé mostra no Central da Periferia como jovens haitianos vivem na periferia. Exibido em 9 de dezembro de 2007. Vídeo aqui.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

JC: A Vida Mambembe

* Série de reportagens assinada por Fabiana Moraes sobre a vida de artistas de circos que circulam pela periferia. Publicada em de 23 de outubro de 2006 no Jornal do Commercio, ganhou o Prêmio Esso 2007 na categoria Regional 1.

Sobrevivendo sob a lona

São nove da noite e Maria Aparecida de Albuquerque, a Cida, 40 anos, está apressada: pinta os lábios de vermelho rapidamente, coloca sombra escura, escova os cabelos. Veste um maiô preto com lantejoulas, bem cavado, sobre a meia arrastão. Dá um beijo no filho Diego, de 12 anos, portador de paralisia cerebral, e sai correndo: está na hora da dona de casa, casada, dois filhos, transformar-se na maravilhosa Shirleide, a mulher que todas as noites canta sucessos de Gretchen ou Calypso para uma platéia que paga R$ 1 para entrar no circo Trans-América, um dos poucos circulando na periferia no Recife. Às vezes, são 300 pessoas aplaudindo. Às vezes, apenas 30. Por mais contraditório que pareça, Shirleide não se importa tanto com o número de espectadores, mas Cida está sempre na expectativa: ela sabe que o café da manhã e o almoço do dia seguinte dependem do dinheiro que seu filho mais velho, Diogo, 18, vai trazer da bilheteria.

Para Shirleide, a vida é bem mais glamourosa: além de rebolar, sorrir e ser aplaudida, ela também é admirada enquanto rodopia no ar usando a lira (circunferência de ferro pendurada no alto da lona) no número de balé aéreo. Cida, por sua vez, tem que cozinhar diariamente para cerca de 15 pessoas, costurar as roupas já gastas dos artistas do Trans-América e levar o filho menor, duas vezes por semana, para a fisioterapia. O trabalho é árduo. Diogo pesa cerca de 60 quilos e não anda. Ela precisa de dois ônibus para chegar até Afogados, onde seu filho se trata.

Enquanto ela vai, o marido, Gerson Cardoso da Silva, 55, fica cuidando do espetáculo e de assuntos burocráticos relativos ao circo que adquiriu há cerca de 13 anos. Os problemas são muitos, e variados: há o pagamento dos integrantes da trupe, a lona que está rasgada, o sumiço do equipamento de som, a contratação da banda que animará o espetáculo de logo mais. Gerson faz as vezes de animador. Por volta das 20h30, ele entra no trailer usado como cabine de som e de lá chama os artistas ­ inclusive a esposa Cida/Shirleide.

“Convido a todos para a viagem de ilusão e fantasia! senhoras, senhores e crianças, o sonho vai começar!”, diz ele, enquanto o picadeiro é invadido pelo trapezista e palhaço Ricardo, 24, que mostra o giro espacial, um número onde o artista faz várias evoluções usando os braços como apoio, ou apenas as pontas dos pés. Enquanto o rapaz gira a vários metros no chão, um homem bêbado entra no circo e fica observando a façanha.

Nesta semana, o Trans-América estava na quarta etapa de Rio Doce, local com maior “produto interno bruto” do que, por exemplo, a Favela do Rato (Comunidade do Pilar), onde a tenda havia sido armada antes. Quanto mais pobre é a platéia, mais mirrada é a renda do circo. Em Rio Doce, a média do público animou seu Gerson, que viu cerca de 100 pessoas irem até a lona nos dias de atrações como shows de brega e bailarinas seminuas.

Ele chama a próxima estrela: é o Palhaço Chupetinha, que, sem maquiagem, é o garoto Lardi, de apenas seis anos. Ele adora a profissão e quer ser como o pai, Laudionor Lima da Silva, 26, o Palhaço Mutreta. No picadeiro, o menino canta a música Eu faço cócegas e faz gestos obscenos – mexe os quadris, os genitais, mostra o dedo médio – para a platéia. É um espetáculo meio triste e constrangedor, mas é assim que Lardi ajuda o orçamento familiar. As apresentações continuam até a chegada do convidado da noite: é a drag queen Sempre Quita, uma celebridade entre as lonas da periferia. O público delira, Chupetinha pula no palco, felicíssimo, e faz uma espécie de performance com a drag, que entoa uma música onde se ouvem palavras como “cadela” ou “vagabunda”.

É o 10º bairro que o Trans-América visita este ano (e Quita, como é chamada pelos fãs, faz sucesso em todos). Além de Rio Doce e Favela do Rato, eles já estiveram em Roda de Fogo e Maranguape 1. Na primeira semana, o ingresso custava R$ 2 para adultos e R$ 1 para crianças. Agora, o preço é único: apenas R$ 1 para ver o incrível engolidor de fogo (de novo Laudionor, que também é pirofagista e cabeleireiro), o palhaço Fuzuê, os equilibristas Rodrigo e Diego. Seu Gerson, pode-se dizer, tem um bocado de sorte: 90% dos seus “empregados” fazem parte de sua família. São filhos do primeiro casamento, genros, noras. Quando o público é pouco, ele vende uns discos, uma caixa de som, tv velha. Dá o apurado a Cida, que compra comida e espera o show do outro dia. (F.M.)


Picadeiro é alternativa para quem quer fugir da fome

O Big Circo Brasil, atualmente rodando em cidades como Ipojuca, Escada e Primavera, abriga dores de diferentes tons. Os empregados são, na maioria, gente que não tinha muita opção e terminou por ali para ter um lugar pra dormir e comer. Entre eles está Eduardo Claudino da Silva, 22, também conhecido como O Incrível Homem do Peito de Aço. O título tem explicação: Eduardo, nascido em Quipapá, interior de Alagoas, há anos sem ver a família, ganha cerca de R$ 20 por semana – às vezes menos – permitindo que uma pedra grande seja quebrada em seu tórax.

“Eles batem com uma marreta, a pedra se divide no meio”, conta ele, entre tímido e orgulhoso por seu número. O peito de carne e osso de Eduardo reclama, mas ele não presta muita atenção. Às vezes dói também na pele, principalmente quando ele entra no picadeiro trazendo a sua Cama Infernal, uma lona dobrada em quatro e forrada com vidro. Ele passa os cacos nos braços, nas pernas, no rosto. A platéia da cidade de Primavera, a 97 quilômetros do Recife, olha sem muito assombro – definitivamente, é tarefa inglória concorrer com o sangue fácil da televisão. Mas Eduardo, transformado em artista que aprendeu a se virar dentro da estrutura precária que é a sua própria vida, tem seus trunfos: ele deita-se sobre os pedaços de garrafas de Rum Montilla quebrados minutos antes atrás da velha lona do Big Circo Brasil e espera que o apresentador Jardiel suba em suas costas. Depois, vira o corpo para cima e uma garota é convidada a também subir no seu corpo. Os cacos de vidro já fizeram o estrago – vê-se sangue em seus braços, costas, rosto. Há sangue também no peito de aço.

O número de integrantes do Big Circo Brasil é, assim como nas outras lonas, bastante flutuante: há pouco menos de dois meses, eram 16. Três artistas saíram quando a estrutura foi desmontada em Escada e seguiu para Primavera. Na mudança, mais duas pessoas se juntaram ao empreendimento de Zenaide Ferreira e Alexandre Jorge, 23, mãe e filho que administram o circo. É uma renovação constante de talentos – entenda-se por isso o talento para cumprir qualquer tarefa do que propriamente um dote artístico. “A maior parte de quem chega não faz nada, quer apenas um canto para dormir. É aqui que eles aprendem alguma coisa”, diz Alexandre, que faz as vezes de apresentador, atirador de facas e palhaço. A mulher dele, Márcia (a Garotinha Mayara), 22, é uma das bailarinas que dançam os sucessos populares ao lado de mais duas meninas. As músicas não se diferenciam do Trans-América e de outros circos circulando no Estado. Amor, paixão e a expressão “toda molhada” são uma constante no picadeiro. “O circo hoje se segura com bailarina e palhaço. Se não tiver piada e mulher bonita, não tem público”, diz Alexandre.

Aos 17 anos, a dançarina Aline Cristina não é exatamente uma mulher voluptuosa. Magrinha, tem rosto e corpo de menina. É novata no Big, que seguiu para acompanhar Sérgio Marcos, 18, contratado para se equilibrar sobre o chamado cilindro japonês e passar fogo no corpo. A função de Aline é “levar a platéia ao delírio”, e, para isso, ela entra no picadeiro usando um biquíni que deixa o bumbum de fora. Sobe e desce ao chão, rebola envergonhadíssima, insinua-se para a platéia. A mãe evangélica não concordou quando a filha, ex-adepta da Bíblia sob o braço, saiu de Ribeirão para se juntar ao equilibrista. Os dois agora vivem em uma barraquinha montada atrás da lona principal. Sustentam-se com R$ 35 por semana. Aline, maquiada de mulher bonita antes de entrar no palco, passa a mão na barriga e sorri. “Acho que estou grávida, minha menstruação está duas semanas atrasada.”

LOUCURA E PURPURINA - A outra novata na lona atende simplesmente pelo nome de Maria. Foi chegando no Big aos poucos, antes da viagem até Primavera. Agora, é uma das novas “artistas”. Ninguém sabe a sua idade, nem a própria. Aparentando pouco mais de 40 anos, Maria é deficiente mental. Já ganhou nome artístico: Paraguaia. Dança no picadeiro repleta de uma maquiagem feita por ela mesma, onde camadas de purpurina dourada enfeitam olhos e bochechas. Sem os dentes da frente, gordinha, ela dança com um vestido curto. Em seu imaginário, Maria, que hoje vive no mesmo barraco de Eduardo Peito de Aço, é uma bailarina. Para o público, no entanto, ela é um bom alvo de piadas e outro motivo para ir até o circo. A intenção é sempre rir e se divertir. Não importa muito bem com o quê. (F.M.)


O mágico Alakazan viu seu circo sumir em um plano de governo

Alakazan está deitado na cama de seu trailer e olha o movimento pela pequena janela. O circo de lona gasta que leva seu nome está armado na Vila Santa Luzia, na Torre, um local extremamente popular incrustado no bairro classe média. De vez em quando, um ou outro garoto chega até ali e lhe pede alguma coisa, baixinho. “Não, hoje não, já lhe dei dinheiro ontem, o que você quer mais?”, diz ele, meio aborrecido. Antes, os meninos ficavam fascinados com os truques do artista. Hoje, nas áreas pobres em que o circo passa, eles não esperam coelhos saindo de cartolas - se o mágico colocar R$ 1 em suas mãos, está feito o extraordinário.
O homem magro, vestindo roupas simples e dono de uma lona que tem como maior tesouro cinco velhos trailers e um Opala de quase 20 anos, já comandou um dos maiores circos do Norte e Nordeste. Wilson Ribeiro da Silva, 58 anos, chegou a empregar setenta pessoas, entre elas coreógrafos, músicos, palhaços, contorcionistas e cozinheiros. Viajava pelo Brasil com equipamentos que eram carregados em duas carretas próprias. Os artistas iam nos quatro ônibus também pertencentes ao mágico. Animais como elefantes, leões e chipanzés eram outros “contratados”. Eram os anos 80 e o Circo Alakazan fazia parte da mítica do “maior show da terra”. Alakazan, já sentado em sua cama e rodeado de caixas com roupas de apresentação e outros apetrechos usados em seus números de mágica, ri meio irônico quando fala dessa época. “O meu circo é o maior do mundo. Ele nunca enche.”

Cerca de 15 pessoas trabalham no local - o número, como já foi dito, nunca é muito certo porque sempre existe alguém chegando ou saindo. Ao contrário de vários de seus pares, que levam a família sob a lona, Alakazan tem apenas um filho - Alakazan Júnior - que trabalha esporadicamente com ele. O rapaz de 26 anos já não se dedica ao equilibrismo. Vive de música. Trocou o arame pelo brega e hoje é o Alakazan dos Teclados.

Há trinta e três anos trabalhando no circo, o mágico e proprietário de lona é sem dúvida um dos nomes mais importantes da arte circense em Pernambuco. Apesar da situação que nem de longe lembra a alegria do Alakazan de anos atrás, quando saía em turnê por Estados como Bahia, Maranhão, Paraíba e até Pará, o artista não pensa em largar o ofício. Vai tentando segurar o show como dá: para não faltar comida, uma das táticas é pedir apoio a comerciantes dos bairros. Caso uma padaria resolva doar pães para os trabalhadores do circo, o nome do estabelecimento é citado nas propagandas diárias, quando o velho Opala circula pelos bairros anunciando as atrações da noite.

Além dos clássicos engolidores de fogo e malabaristas, o anúncio vindo do carro velho chama as grandes atrações: shows de Augusto César, Starboys, Swing no Amor e, de novo, a drag queen Quita. Às vezes, a atração não chega a ser anunciada e é feita à boca miúda. É quando acontecem “números” de strip-tease realizados por Vânia, a mulher de um dos palhaços. Apenas adultos são permitidos nessas ocasiões. “A gente absorve o que está na moda. Eu não gosto, mas o povo gosta”, comenta Alakazan, que não vitimiza a sua condição e assume: sua lona desgastada ainda dá renda. “Mas é preciso pagar bem os artistas e ter bons equipamentos. E para isso é preciso de mais público e de apoio”, fala ele, que viu seu mágico espetáculo começar a ruir nos governos de José Sarney (1985-1989) e Fernando Collor (1990-1992). O último confiscou os Cr$ 22 mil, moeda corrente na época, que Alakazan guardava para manter o circo. “Tive que ir vendendo tudo, atrasei folha de pagamento, os artistas foram embora”. Anos antes, um terrível acidente ocorrido no interior da Bahia já havia contribuído para a decadência da lona, quando um leão matou uma criança, a exemplo do que aconteceria anos depois em Pernambuco, no Circo Vostok. Nunca mais o Alakazan foi o mesmo.

PALHAÇADA E BARRIGA VAZIA - No Gran Londres Circo, comandado por Índia Morena (Margarida Pereira de Alcântara, 63, conhecida nacionalmente entre seus colegas de lona), vive Givanildo Francisco dos Santos, o Palhaço Maletinha, pai de 24 filhos. Oito moram na barraca erguida atrás da lona. Lucas é o mais novo, tem 4 meses, e estava nos braços da irmã Mayara, 5, no dia da primeira visita da reportagem ao local. Os dois, além de outras crianças, brincavam perto da estrutura de uma velha geladeira vazia que cumpria o papel de jaula para uma jibóia, a estrela do show da noite.

Maletinha acaba de ser contratado por Índia, que vai pagá-lo semanalmente, e não apenas os cachês por shows. “Ele é meu melhor artista e entende tudo sobre a armação da lona”, elogia ela, presidente da Associação dos Circenses de Pernambuco. Considerada uma das melhores contorcionistas que o picadeiro pernambucano já viu, ela conseguiu construir uma casa em Muribeca Rua, Jaboatão, mas diz não conseguir passar muito tempo lá. “Meu lugar é aqui na lona.” Faz 53 anos que a sexagenária tem vida mambembe. No trailer em que vive, panelas, comida e roupas de paetês dividem espaço com duas camas. As roupas são o grande orgulho da ex-rumbeira, que, vaidosa, anuncia: “Tenho mais de cinqüenta pares de sapatos”. Presidente da Associação dos Circenses de Pernambuco, ela, desiludida com a classe, reclama: “Os artistas estão se acabando. Hoje, o circo tem só gente morrendo de fome.” Andréa, mulher do Palhaço Maletinha, concorda. “Às vezes, o aperto aqui é muito grande.” (F.M.)

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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

O que é notícia?

* Rubem Braga, sempre.

Os temas que aparecem com frequência nos meios de comunicação vão moldar as conversas e os pensamentos que circulam na sociedade, vão ditar os modismos, as piadas, as preocupações, as imaginações. E o que é mais preocupante é que esses temas (os mais recorrentes na grande mídia) são quase sempre os mesmos. E estão geralmente associados às fofocas pessoais, entretenimentos apelativos ou tragédias sociais.

Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:

- Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime. "Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz..." Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:

"Anteontem, cerca de 21 horas, na rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos de 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraça-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando com um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão, voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavras: "Meu amor", ao que ele retorquiu: "Deolinda". Na manhã seguinte, Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência às 7,45 da manhã, isto é, dez minutos mais tarde do que o habitual, pois se demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra, de propriedade do casal."

A impressão que a gente tem, lendo os jornais - continuou meu amigo - é que "lar" é um local destinado principalmente à prática de "uxoricídio". E dos bares, nem se fala. Imagine isto:

"Ontem, cerca de 10 horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente à rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar "Flor Mineira", à rua Cruzeiro, 534, em companhia de seu colega Pedro Amancio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se à fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim, quando apareceu Joca de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo-se aos dois amigos, Joca manifestou desejo de sentar-se à sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota, que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo acontecendo aos três amigos, que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciário Adalberto Ferreira, residente à rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegado a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada."

E meu amigo:

- Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redação será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida...

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Folha: País quer quem fale bem a língua, diz FHC

* Trecho de matéria sobre o Congresso Nacional do PSDB publicada em 24 de novembro de 2007, na Folha. Assinam Silvio Navarro, Felipe Seligman e Maria Luiza Rabello.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso encerrou ontem o Congresso Nacional do PSDB, em Brasília, afirmando que quer "brasileiros melhor educados, e não liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria."

O ex-presidente cometeu um erro de português. Especialistas consideram que, de acordo com a norma culta da língua, o correto seria ter dito "brasileiros mais bem educados".

Em suas mais duras críticas desde que começou o evento tucano, FHC não mencionou diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e nem o PT, mas sua fala foi entendida pelos presentes como uma alusão ao presidente petista.

Em um esforço para tentar separar as denúncias do valerioduto tucano do escândalo do mensalão, o PSDB, no último dia do congresso, deixou para FHC desferir a artilharia pesada contra o governo e o PT, a quem o ex-presidente se refere como "elitezinha que se abotoou ao poder".

O tucano citou Lula logo na primeira frase do discurso, mas, no decorrer da fala, passou a ocultar o nome do presidente Lula. Permeou o discurso com frases para rebater as críticas do PT que o partido e seus membros são elitistas.

"Nosso partido tem gente acadêmica, não temos vergonha disso. Tem gente que sabe falar mais de uma língua, e também sabemos muito bem falar a nossa língua. Muitos brasileiros ainda não puderam saber falar bem a nossa língua e muito menos as outras", afirmou FHC para os militantes.

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quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Juliette Binoche na Playboy francesa

* A Playboy francesa de novembro não traz uma coelhinha qualquer na capa. A atriz Julliete Binoche, 43, é o destaque. Ela posou para a fotógrafa Marianne Rosenstiehl.







Aspas: Imprensa exclui os excluídos, diz Kotscho

"Muito dos meus colegas jornalistas deixam de ir onde o povo está. Fazem as coisas por telefone ou e-mail. O que predomina na imprensa brasileira hoje é o noticiário oficial, de poder e de celebridades. Isso exclui os excluídos. A gente muitas vezes fica falando dos patrões da grande mídia, mas a mudança de postura depende dos profissionais. O Zuenir já deu vários exemplos disso. O repórter tem que ir para a rua."

Ricardo Kotscho, jornalista e escritor no Fórum das Letras de Ouro Preto, em 2 de novembro de 2007